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Culturofagia - Carmem Toledo

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segunda-feira, 24 de junho de 2013

"Sinestesia", por Carmem Toledo


Uma homenagem ao primeiro Círculo Precioso do qual participei, no Saphyra Espaço de Dança.

por Carmem Toledo


Ao longe, vi passar uma caravana cheia de cores, sons e aromas...
Pude enxergar um grupo de ciganos que caminhavam, cantando e tocando seus instrumentos.
Senti uma brisa que, rapidamente, transformou-se em um vento forte. Meus cabelos meneavam qual bandeira a ostentar um brasão e uma história. O brasão batia em meu peito; a história era algo muito pessoal ainda a se desenvolver.
Senti uma forte curiosidade, mas o medo do desconhecido fez com que meus pés não saíssem do chão.
Vacilei. Dei um passo. Parei. Meu pé direito quis dar um passo, mas o esquerdo ficou para trás. - Espere! Os passos consistem justamente neste movimento! - Compreendendo isso, meu pé esquerdo resolveu imitar o direito e o ultrapassou.

Cheguei perto da caravana. Mesmo assim, ainda imaginei que seria melhor observá-la atrás de uma árvore.
Os sons tornaram-se mais nítidos e os aromas, mais inebriantes... Por fim, dei-me conta de que as cores eram doces, os sons brilhavam como o Sol e os aromas faziam-me sentir muita vontade de dançar!
Como isso era possível? Será que estava louca?

Decidi que o melhor seria me aproximar mais... Não sei se saí de trás da árvore ou se a Natureza fez um de seus milagres - se é que podemos falar em milagres, uma vez que não compreendemos nem mesmo quem somos e, ainda assim, teimamos em chamar "milagre" tudo aquilo que foge ao que esperamos -: só sei que, quando me dei conta, já estava na caravana e ela me conduzia...

Eis que mais uma surpresa me ocorreu: Eu não era conduzida, mas conduzia. Sim! Vi-me à frente, levando o grupo! 
Em questão de segundos (não posso afirmar com certeza, já que havia perdido a noção de tempo), notei que eu não era a única a conduzir e tampouco fui conduzida. Incrivelmente, todos conduziam. Todos eram guias. Compreendi, finalmente, que todos eram mestres e aprendizes naquelas sendas.

O grupo tinha a harmonia do canto do rouxinol e das cores do arco-íris. Havia uma unidade tão bem formada, que uma só voz era ouvida.
No entanto, a unidade que me deixara tão embasbacada revelou-se fruto da individualidade de cada voz. A unicidade fazia a unidade.
Quando me dei conta, já fazia parte da caravana... e ela fazia parte de mim.

Por fim, sentamo-nos em um círculo, onde compartilhamos palavras, silêncios, medos, bravuras, o pão e o chão. Lá, notamos a humanidade de cada um - ou melhor: lembramo-nos de que somos humanos. Em círculo, ninguém é o primeiro ou o último; ninguém está à frente ou atrás. Apenas estamos. Apenas somos. Vemos e somos vistos do mesmo ângulo por todos... E todos estão lado a lado: como companheiros.

Entendi, depois de muito pensar, que os sons, os aromas, as cores, o vento, tudo aquilo éramos nós mesmos!
E eu já não me referia à caravana utilizando a terceira pessoa, mas a primeira!
Singular e plural eram uma única coisa.

Cheguei, então, à conclusão que eu não esperava encontrar (e estas costumam ser as melhores conclusões: aquelas que não são convidadas!): Deus existe.


Carmem Toledo.



(Texto publicado originalmente no blog "Carmem Toledo", no dia 14 de setembro de 2012, em homenagem ao primeiro Círculo Precioso do qual participei, no Saphyra Espaço de Dança.)




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